Pseudo-religiões e Religiões (por Francœur)
“O cultivo do amor e da compaixão é a verdadeira essência de todas as crenças. O importante é que em sua vida diária você pratique as coisas essenciais e, nesse nível, quase não existe diferença entre budismo, cristianismo, judaísmo, islamismo ou qualquer outra fé. Todas elas focalizam o desenvolvimento, o aperfeiçoamento dos seres humanos, o sentimento de fraternidade e de solidariedade. Nesse sentido, as diferenças entre as religiões não são de maneira alguma essenciais.”
— Dalai Lama
O termo Religião, em seu mais elevado sentido, designa uma linha de religar os seus discípulos ao Todo. Esta palavra presente em diversos idiomas ocidentais vem do latim “religare”, que significa religar, considerando que houve uma ligação com o Todo que de algum modo foi perdida; como os seres relativos se desconectaram do Todo é explicado de diversas formas em diferentes linhas de compreensão, as quais, se forem autênticas, apontam em essência para a mesma ideia.
A mais elevada chave de entendimento que foi e tem sido ensinada nos círculos mais internos das Religiões Autênticas, que é o pilar fundamental de todas as outras ideias relacionadas à vida espiritual, é o Monismo. Segundo este, há só um Deus, Quem é tudo quanto há, e é essencialmente indivisível. Pela atividade mental de um de Seus aspectos surgem as ilusões da infinidade de universos e a multiplicidade de existência apenas aparente. Daí as infinitas coisas e seres estariam separados e seriam distintos apenas em aparência, mas não em essência. Cada ser e cada coisa, se forem considerados em seu mais profundo sentido, seriam então unos com Deus, sem qualquer separação, ou seja, tudo quanto há seria UM SÓ (UM Sol)! Da mesma forma, temos também que Deus seria, completamente, qualquer coisa e qualquer ser.
O Monismo estava originalmente associado a diversos ensinos reservados, os quais eram transmitidos exclusivamente, no Egito Antigo, em círculos internos de suas Escolas de Mistérios. Em uma certa altura, o faraó Akhenaton entendeu que deveria divulgar publicamente estes ensinos, mas talvez a grande maioria das pessoas não estava à altura para recebê-los, visto que logo surgiu uma distorção desta compreensão, propagada por Moisés e outros que receberam tal conhecimento, que constituiu um feixe de ideias que denominamos monoteísmo. Em outros lugares do mundo houve formas análogas de degeneração de ideias autênticas, a partir do momento em que foram chegando ao domínio público. Nos tempos presentes, especialmente no Ocidente, quase todas as pessoas, que buscam adotar alguma religião, entendem Deus sob uma perspectiva monoteísta, como um Ser que governa este universo, mas não se identifica com este, e busca implementar a sua forma pessoal de moralidade, castigando as pessoas que não se adéquam a este padrão e premiando aquelas que o respeitam.
Compreensões menores como o monoteísmo e outras afins, por parte da maioria das pessoas em todo o mundo, as condiciona às suas próprias ideias, geralmente equivocadas, do que seria religião, sendo que tais formas de entendimento geralmente são limitadas pelas ideias do que seria Deus, e pela eventual adoção de códigos morais, ou seja, doutrinas do que seria errado ou certo. Tais linhas de compreensão praticamente majoritárias determinam concepções correspondentes do que seria religião, como um sistema de dogmas e rituais que busca padronizar os seus aderentes com diversas práticas de fundo moral, a fim sintonizá-los com o que acreditam ser Deus, e então, segundo tais crenças, conduzir estes seguidores a uma maior paz de espírito e a uma eventual condição celestial após as suas passagens ou desencarne. Tais são as promessas quanto ao destino dos considerados bons seguidores, as quais têm um fundo de verdade, embora sejam essencialmente ilusórias e, na melhor das hipóteses, aprisionam os seus discípulos em “gaiolas douradas”, isto é, supostos céus onde se sente um gozo ou deleite, mas que não passam de falsas fantasias mentais. Da mesma forma, os considerados maus seguidores estão sujeitos a conflitos íntimos que os levam a infernos subjetivos, os quais são pesadelos que também não passam de fantasias.
Ideias equivocadas em nome de Deus geram formas de moralidade que julgam como “erradas” todas as pessoas que não se adéquem a este padrão, mesmo em questões de foro íntimo, que não prejudicam ninguém. Deus porém, se existe, não tem nada a ver com qualquer forma de moral, pois não é uma pessoa ou personalidade para identificar-se com qualquer ideia do que seria “errado” ou “certo”. Tampouco é simplesmente um Ser que administra este universo como governante. É o Todo, visto que é onipresente, daí tudo que acontece é igualmente aceito, os juízos vêm dos homens, não têm nada a ver com Deus! Alguém com ideias enganosas com pretensões de ser líder religioso é como um cego dirigindo cegos, pior ainda quando prega ideias de intolerância e incompreensão, aí tal pessoa ainda presta um grande desserviço pela instabilidade social, discórdia e até guerras que eventualmente está sujeita a provocar.
Nada que existe no sentido relativo (pois no Absoluto só há UM) é apenas negativo ou positivo, tudo tem pelo menos dois lados de apreciação. Assim também se dá com compreensões como o monoteísmo e com os códigos morais. O primeiro é uma forma de compreensão possível para a maioria das pessoas, na medida em que buscam reduzir tudo que veem e recebem aos parâmetros locais do mundo aparente que percebem. Já os códigos são necessários enquanto muletas para pessoas que não chegaram ainda, de fato, à condição de serem adultas, em que ainda são dependentes de autoridades tal como as crianças o são. Pessoas ainda na fase mental infantil precisam de dogmas para a sua comprensão, pela sua incapacidade de exercer uma reflexão mais profunda, e de noções mais ou menos fixas do que seria errado ou certo. Isto tudo para viabilizar a existência de sociedades em que os seus membros, sobretudo os mais infantis, não fiquem se agredindo mutuamente, a fim de que consigam conviver da melhor forma possível.
Em consequência da adoção de diversas ideias errôneas ou semi-errôneas, vindas na maioria das vezes de ideias válidas do ambiente de religiões autênticas, todas ou quase todas as instituições que buscaram representá-las passaram por uma gradual decadência. Neste sentido, todas as religiões autênticas vieram para cientificar todos de sua real condição de serem UM, mas posteriormente adeptos equivocados destas instituições alegadamente “religiosas”, falando pretensamente em nome de alguma religião original, passaram a pregar discriminação e pré-conceitos, em uma evidente deturpação ao espírito de qualquer religião genuína!
Por isso é necessário que todos aqueles que pretendem sentir discernimento para saberem como se conduzir instante a instante, no sentido de evitar descaminhos e acertar os verdadeiros caminhos, saibam distinguir bem as pseudo-religiões das verdadeiras religiões. Aquelas são sistemas que aprisionam os seus adeptos em condições de ser mais ou menos fixas; são válidas para crianças que precisam de dogmas e moralidade, mas todos aqueles que querem de fato assumir uma condição de serem adultos, não só cronologicamente, mas quanto à liberdade mental, deveriam se libertar do jugo destas formas essencialmente falsas. Já as Religiões Autênticas libertam os seus discípulos de todos os dogmas e padrões morais, e tendem a levá-los ao encontro da única Realidade: a sua Unidade com tudo quanto há! Neste sentido, no final do caminho de cada seguidor, até o liberam da condição de ser discípulo, pois então ele ou ela não mais precisa seguir ninguém, por ver-Si como o Todo!
Que todos nós aprendamos a desmascarar as pseudo-religiões e a reconhecer melhor as autênticas Religiões!
