Dos possíveis erros, das autoridades e dos líderes (por Francœur)

 Dos possíveis erros, das autoridades e dos líderes (por Francœur)

“As pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.”

— Boaventura de Souza Santos

 

Em todas ou quase todas as épocas e lugares neste mundo, a maioria das pessoas nos mais diversos grupos sociais adotou ou adota crenças ou padrões de comportamento que se revelaram depois errôneos segundo sentem as pessoas mais esclarecidas. Ressaltamos no entanto que nada que existe é errado ou certo de um ponto de vista absoluto, pois o que acontece é no mínimo uma experiência válida para o aprendizado de quem a vive, e, mesmo se revelando errôneo para pessoas mais lúcidas, tais crenças ou padrões de comportamento podem levar a um benefício individual ou coletivo sob diversos pontos de vista, visto que tudo que acontece tem pelo menos dois lados, um negativo e outro positivo.

 

Damos a seguir alguns exemplos de crenças ou padrões coletivos de comportamento que hoje nos parecem errôneos, mas mantendo a ressalva de evitarmos avaliações definitivas de qualquer evento, pois nada é apenas mal ou bom de uma forma absoluta:

  • Nos anos trinta do século XX, a maioria dos alemães elegeu e apoiou Adolf Hitler, quem conduziu a Alemanha a uma autodestruição e à morte de dezenas de milhões de pessoas na Segunda Guerra Mundial.
  • Na Roma Antiga todos os espectadores de jogos de gladiadores apoiavam lutas mortais entre homens armados como espetáculos de entretenimento.
  • Considerando relatos da tradição cristã, a maioria presente ante Pôncio Pilatos optou por uma escolha que teria levado à morte de Jesus na cruz.
  • Na era medieval, praticamente todos na Europa acreditavam ser a Terra plana.
  • Nos tempos atuais, a grande maioria cultua esportes competitivos, embora os mesmos sejam comprovadamente nocivos à saúde dos atletas.
  • No presente a grande maioria apoia ou acata um sistema de vida predatório à Natureza, incompatível a médio e longo prazos com a própria continuidade da vida humana e à biodiversidade neste mundo.
  • Em tempos diversos, a maioria dos adultos do sexo masculino praticou ou pratica vícios extremamente danosos à saúde, tais como o uso de bebidas alcoólicas e de cigarros, e o consumo de alimentos tais como açúcar branco e batatas fritas.
  • Em tempos diversos, tanto no passado como no presente, as maiorias em alguns lugares do mundo adotaram ou adotam formas de fanatismo político ou religioso, que levam sempre ou quase sempre ao obscurantismo cultural, à opressão social e/ou à morte de diversas pessoas que não pertencem a estas maiorias.

 

Por isso cada homem ou mulher não deveria seguir qualquer maioria nem tampouco submeter suas crenças a qualquer líder político ou religioso, mas sim buscar sentir a voz de seu próprio coração e o discernimento de sua razão!

 

Existem os bons líderes em qualquer ambiente, aqueles que revelam sabedoria no que dizem e dão bons exemplos em seus atos; estes merecem atenção, e o que dizem merece ser bem examinado e refletido por cada um, na medida em que sejam assim reconhecidos pela pessoa. No entanto, em qualquer caso, uma idolatria incondicional deveria ser evitada, visto que o discernimento de quase todos nós não é perfeito e estamos daí sujeitos a erros no sentido de nos enganarmos quanto à avaliação da idoneidade de quem se apresenta como líder. Além do mais, mesmo um bom líder não é perfeito, daí está sujeito a também enganar-se em alguns pontos, daí é preciso saber constantemente peneirar o que ouvimos e observamos.

 

Quanto aos maus líderes, aqueles falhos quanto ao que julgam saber e também quanto aos seus atos, devemos saber nos resguardar de suas tentativas em querer nos convencer do que acreditam ou do que nos exortam a fazer, seja nos retirando do ambiente que frequentamos, se este for mesmo o caso e assim for possível e válido, ou mantendo uma reserva quanto à comunicação com os mesmos, se estes, além de persistirem no que consideramos errôneo, não quiserem tomar conhecimento do que sentimos. Em alguns casos, se conhecemos alguém de uma alçada superior neste ambiente, e que seja receptivo a ouvir, é desejável comunicar a este o que sentimos. Mesmo o que experenciamos com tais pessoas é válido como exemplo no que não queremos acreditar nem ser, e também quanto ao que não queremos fazer, e também reforça a nossa paciência e perseverança naquilo que queremos ser e acreditar em ainda maior profundidade, por isso, sob um ponto de vista mais profundo, até com tais pessoas podemos aprender um tanto, aí são para nós como “mestres às avessas”!

 

Em nenhum caso, se pretendemos agir como uma pessoa madura, deveríamos aceitar alguém como autoridade no sentido do que devemos acreditar ou sentir, sob pena de nos tornarmos fanáticos e participarmos de erros coletivos tais como os exemplificados acima. Na medida em que alguém nos parece ser um bom líder, podemos dar uma atenção especial ao que este diz ou exemplifica em seus atos, e examinarmos o que este pretende nos aconselhar ou ensinar, mas jamais deveríamos imitar cegamente ou acreditar incondicionalmente no que ouvimos.

 

Toda relação entre aqueles que são considerados ou que se consideram autoridades no que se deve acreditar ou sentir e seus seguidores, na medida em que estes não mais são crianças, nos mais diversos ambientes, tende a uma crescente perversão e degeneração, por isso tal processo deve ser discernido, e cada pessoa deveria buscar se liberar do mesmo, e buscar sempre uma relação saudável. Uma autoridade pode e geralmente deve ser aceita apenas no sentido administrativo-funcional, jamais mais que isto, sob pena de cairmos para uma condição de fanatismo.

 

Bons líderes, na medida em que reconhecemos esta condição nos mesmos, merecem atenção quanto ao que dizem ou fazem. Deles podem vir bons conselhos, ensinos e exemplos. Em qualquer caso nunca devemos esquecer de peneirar o que ouvimos ou observamos, considerando que quase sempre ninguém é perfeito. Em quase nenhum caso devemos submeter o que fazemos ou acreditamos de uma forma cega ao arbítrio de ninguém, a não ser que realizemos que a pessoa que consideramos um bom líder é também um Mestre. Aí pode ocorrer uma sintonia tal que implica uma relação de profunda confiança. Ressaltamos, no entanto, que mesmo um Mestre busca o crescimento de seus discípulos em todos os sentidos, inclusive quanto ao seu discernimento, daí não pretende uma relação de dependência, mas sim que os seus discípulos floresçam plenamente em todos os sentidos, inclusive no de atuarem por sua vez como novos Mestres, quando o tempo assim chegar!

 

Que todos nós aprendamos cada vez melhor a agir como adultos, como seres dotados de um discernimento cada vez mais maduro!